Sexta, 17 Maio 2013 08:11

A Marcha do Triunfo

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  Em Fátima, Nossa Senhora disse: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”. O que é esse triunfo? Ela nos explicou no Vale que o triunfo de seu Imaculado Coração significa a segunda volta de Jesus Cristo. Também nos disse que estamos caminhando a passos largos para esse acontecimento que terá “proporções jamais vistas na história da humanidade”. Sem ligação aparente com esse triunfo, existe um morro todo de pedra localizado a 33 quilômetros do Vale que, devido à existência de uma cruz em seu topo, passou a ser chamado de Montanha Sagrada. Naquele local foram celebradas missas e todos os anos — durante a caminhada de três dias dos fiéis que se dirigem ao Vale, vindos de Conselheiro Lafaiete — ali se faz uma parada que, em geral, coincide com a hora da Misericórdia Divina (15h00) e se reza o terço da Misericórdia. Mas, na caminhada do final do ano de 2012, Cláudio Baeta (Claudinho) e os caminhantes ficaram tristes ao ver que o cruzeiro tinha caído. Sua base apodreceu e lá estava ele, abandonado em cima da pedra. Surgiu, então, a ideia de trazer uma nova cruz de madeira e colocar em seu lugar.

cruz

          Ficou decidido que a nova cruz seria levada nos ombros dos fiéis de boa vontade e que deveria sair do Vale na noite de 12 de maio de 2013 (domingo — dia das mães) para chegar lá ao raiar do dia 13, quando se celebra a festa de Nossa Senhora de Fátima. Daí a ligação do morro com o triunfo anunciado em Fátima. Claudinho liderou o ambicioso projeto e — algumas semanas antes do dia 12 — trouxe para o Vale uma cruz de madeira que pesava 200 quilos e tinha 5 metros de altura, com um braço de 2,20 metros. A madeira usada foi cumaru, devido à sua resistência ao tempo. No braço estava escrito: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”. Foi feito um estrado de madeira e a cruz foi amarrada nele, de forma que várias pessoas pudessem ajudar a carregá-la. No dia 12, ela foi carregada até o morro das aparições para que Nossa Senhora abençoasse a nossa jornada durante a mensagem. Foi quando Claudinho se deu conta do tamanho de sua “loucura”, pois não foi fácil carregar a cruz pelos 300 metros que separam a comunidade do local das aparições. Como seria, então, carregá-la por 33 quilômetros? Somente com o auxílio do Céu um projeto de tal envergadura poderia ter êxito. Estávamos com grande expectativa sobre o que a Nossa Mãe nos diria durante a mensagem. Suas palavras certamente iriam tornar mais leve o nosso caminhar. A mensagem se endereçava às mães, como era de se esperar, mas um pouco antes da bênção, Ela disse: “Eu abençoo vocês pela marcha que farão hoje. Deus vai caminhar na frente!”. De fato, suas palavras tiveram o efeito de, literalmente, tirar a cruz de nossos ombros. Nós, que estávamos dispostos a encarar o desafio respiramos aliviados. Sabíamos que iríamos chegar lá. Em particular, eu senti que tínhamos alcançado a vitória, mesmo antes da batalha. Como se lê, muitas vezes no Antigo Testamento, Deus venceu para o seu povo. E, como aconteceu na Paixão de Cristo, Deus carregou a cruz por nós. Desde então a cruz passou a simbolizar a vitória do bem sobre o mal.

marcha

         Depois da mensagem de Nossa Senhora, a cruz voltou para o Vale e foi colocada de frente da capela pequena. Ficou perto do cruzeiro de aço que fica do lado direito da capela. Das cidades de Governador Valadares e de Conselheiro Lafaiete tinham chegado dois ônibus cheios de fiéis e a Prefeitura de Jeceaba, cidade próxima à Montanha Sagrada, enviou um ônibus para trazer os caminhantes de volta. As pessoas que tinham condição de caminhar — aproximadamente umas 70 almas — foram a pé. Os outros foram em carros particulares e nos ônibus de Conselheiro Lafaiete e de Jeceaba. Contei 3 carros e uma caminhonete, que davam apoio logístico levando mochilas e lanches para os caminhantes.

          Às 18h40 do dia 12 de maio, sob o estrondo de fogos de artifício, fez-se a primeira tentativa de levantar a cruz e colocá-la nos ombros dos caminhantes. Mas, apenas um lado da cruz se elevou. O outro lado estava insuportável. Claudinho gritava a plenos pulmões: “Força gente!”. Mas o madeiro ia somente até certa altura. Foi quando percebemos que, montado na cruz, estava Igor (meu filho especial de 14 anos e 80 quilos). Ele estava com as pernas abertas em cima do estrado e quando as pessoas levantaram a cruz ele foi junto, como se estivesse cavalgando o estrado. Estava, então, explicado por que um dos lados ia somente até certa altura. Todos rolaram de rir. A cruz teve de ser abaixada novamente para que Igor desmontasse. Foi assim que, com uma dose de humor, iniciou-se a jornada rumo à Montanha Sagrada.

cruz-marcha          Eu ajudei a carregar a cruz do Vale até a saída da cidade. Não sei como subimos o morro da saída do Vale. Sem cruz a gente custa fazer aquele trajeto de forte inclinação. Os carros e ônibus têm que engatar a primeira para vencer a gravidade. Esse foi para mim o primeiro milagre. Depois viriam outros. Pouco tempo depois que entramos na estrada de terra que liga Piedade dos Gerais a Jeceaba, eu pedi revezamento. Mesmo usando uma almofada para proteger os ombros, devido à irregularidade da estrada, a cruz descia e socava com força o ombro que estava debaixo do estrado. Havia uma média de 12 homens e mulheres carregando a cruz. Mentalmente dividi 200 quilos por 12 e cheguei a um resultado de uns 17 quilos por ombro. Isso é aproximadamente o equivalente ao peso dos dois alteres que tenho em casa e que levanto facilmente quando faço ginástica. Até aí nada de mais. Mas a teoria na prática é outra.  O que mais incomodava não era o peso, mas o movimento de subida e descida do estrado. Havia hora em que eu pensava que todo o peso da cruz estava sobre mim. Eu olhava para traz e para frente para ver se eles estavam de fato carregando a cruz e via que eles também pareciam estar sendo esmagados debaixo daquele colosso de madeira. Não era só eu que estava sofrendo não! Olhei para o céu, salpicado de estrelas e pedi ajuda a Jesus. Eu não conseguia imaginar Ele, o Rei do Universo, ter se submetido a tamanha tortura. Já praticamente morto, Ele teve de carregar o madeiro sobre seus ombros. A cruz caia direto sobre a Sua carne já chagada. Tive todo tipo de pensamentos. Será que a cruz de Jesus era mais leve? Talvez fosse, mas pouco, pois tinha que sustentar um corpo humano. Nós éramos 12. Ele era um. Ele só não morreu ao carregar a cruz porque sua vontade de salvar almas era maior do que a dor de seu corpo. É humanamente inconcebível o que Ele fez. Eu me emocionei, pois senti na própria carne o que deve ter sido o calvário de Jesus.

          Ao contrário do que aconteceu com Jesus, tínhamos um número suficiente de pessoas de boa vontade para revezar. Foi só eu pensar em pedir ajuda e o Samuel (de Conselheiro Lafaiete) passou por perto e olhou para mim. Ao ver o meu cansaço, ofereceu ajuda e entrou em meu lugar. Comecei, então, a caminhar pela beirada da estrada. Não passou muito tempo quando, de repente, fui engolido por um bueiro. Pensei: “morri!”. Mas ao meu lado já havia uma mão estendida para me tirar de lá. Era a Fernanda que estava perto e me deu a mão para que eu pudesse sair. Não tive um arranhão sequer. Considero isso um milagre. A proteção divina estava ali o tempo todo. Depois o Claudinho me revelou que vários grupos de religiosos estavam intercedendo pelo sucesso daquela jornada. Só por milagre a cruz chegaria, como, realmente chegou, no seu destino.

caminhantes

          A primeira parada foi no meio da estrada entre Piedade dos Gerais e um povoado chamado Sesmarias. A cruz foi colocada em cima de três banquinhos enquanto os caminhantes fizeram o primeiro lanche. A segunda foi na capela daquele povoado. A terceira na capela do povoado de Bituri — que fica a 25 quilômetros de Piedade — isso aconteceu por volta das 4h00 do dia 13 de maio. Nessa parada aproveitamos para alongar o corpo usando as máquinas de ginástica localizadas na pracinha da capela. Recobramos o ânimo e recomeçamos. Antes de chegar ao nosso destino fomos brindados com um belíssimo nascer do sol no meio das montanhas. O sol nasceu por detrás de uma bruma densa e nos encheu de alegria. Foi uma glória poder ver o nascer do astro rei em plena natureza. Antes da meia noite foi rezado um rosário inteiro — quatro terços. Depois da meia noite, enquanto ainda estávamos caminhando, rezamos três terços. O quarto, que completaria o rosário com a contemplação dos mistérios gloriosos, foi rezado depois das 6h40 em cima da Montanha Sagrada. Foram dois rosários completos durante aquela jornada. Não poderia haver forma melhor de honrar a data de 13 de maio dedicada à Senhora do Rosário.

Assim que completamos o segundo rosário, o cruzeiro foi levantado no mesmo local em que estava o outro. Vitória! Lembrei-me de uma expressão: “Felicidade não é prazer. Felicidade é vitória!”. Foi maravilhoso ver a cruz pairando gloriosa em cima da Montanha Sagrada. Tive uma sensação de profunda paz e de completude. Eu era testemunho de um milagre. O que parecia impossível de ser realizado, estava agora se materializando diante de meus olhos. Foram 12 horas de caminhada — das 18h40 do dia 12 às 6h40 do dia 13 — nas quais percorremos exatos 33 quilômetros. Será coincidência ou providência que esses números lembram os 12 apóstolos e os 33 anos de vida do Salvador Jesus? Observei outro milagre: durante toda a noite nenhum carro passou por nós, nem indo nem vindo. Como pode ser isso?

cruz-flores

 

          A Prefeitura de Jeceaba providenciou um farto lanche para os caminhantes. Também providenciou todo o equipamento de som que seria usado durante a Santa Missa. Padre Wallace de Conselheiro Lafaiete celebrou uma belíssima missa que teve inicio às 10h00.  Teve uma pessoa que me disse que nunca tinha assistido algo tão lindo. O altar, localizado ao lado da cruz, era feito com as pedras do próprio local. Enquanto o sol iluminava toda a montanha, o vento refrescava nossa pele, e nossos olhos se deliciavam com a vista de várias montanhas ao longe, recobertas de neblina. Antes do início da missa, as nuvens formaram uma cruz no céu.

           Padre Wallace falou dos principais pedidos de Nossa Senhora em Fátima: oração e sacrifícios para a conversão dos pecadores. Comentou sobre a passagem do Evangelho no qual uma mulher diz a Jesus que bendito foram os seios que O amamentaram. A esse comentário Jesus respondeu: “Mais felizes ainda são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a colocam em prática”. E, logo a seguir, o Padre Wallace nos perguntou: “Quem foi que melhor ouviu e viveu a Palavra?”. Respondemos em uníssono: “Maria!”. Na homilia, ele nos esclareceu que o pecador precisa de nosso sacrifício, porque ele é impotente. A pessoa sem oração está indefesa, daí a importância de rezar e fazer penitência por aqueles que estão se perdendo na criminalidade, nas drogas, na prostituição, enfim, nas armadilhas do demônio. Daí a necessidade urgente do nosso sacrifício e de nossos pedidos pela salvação dos pecadores. Ele nos pediu que repetíssemos com insistência a oração ensinada em Fátima: “Ó meu Jesus! Perdoai-nos. Livrai-nos do fogo do inferno e socorrei principalmente às almas que mais precisarem de Vossa Misericórdia!”. Aproveitou para elogiar o esforço dos caminhantes e a devoção do povo do Vale da Imaculada Conceição, de onde partiu a iniciativa daquela caminhada.

missa

 

           Após a missa, às 10h30, Afonso no violão, deu inicio a um lindo louvor em preparação para a chegada da Rainha, a Nossa Mãe e Protetora, a Luz de nossa comunidade fraterna. O sol a pino rachava sobre a pedra e sobre as cabeças dos fiéis e parecia esquentar ainda mais o ânimo para o louvor. Depois da friagem da noite, caminhando com o cruzeiro, estávamos, então, sob um sol escaldante. Marilda, que havia chegado para a missa e para transmitir a mensagem, falou algumas palavras: “Eu pedi a Nossa Senhora que passasse na frente e protegesse vocês nesta caminhada. Vejo vocês com o rosto cansado, mas com o coração exultante de alegria. Estão cansados, mas felizes, porque Maria passou na frente. O sol está quente, mas mais quente ainda é Jesus em nosso coração”. Depois disso o louvor continuou e só parou para deixar a Rainha passar. Ela chegou às 11h40. Depois da mensagem, Marilda disse: “Ela estava com o semblante feliz e o seu terço brilhava na cor dourada”.

Ômar Souki

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Última modificação em Segunda, 15 Janeiro 2018 22:15
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